26 dezembro 2012

Distâncias

Já te ficcionalizei faz tempo. Preenchi todas as lacunas, todos os espaços em branco e todos os intervalos entre um olhar e outro. Todos os corredores e salas se converteram em um labirinto onde nos perseguimos - ou seria nos pesquisamos? - com olhos curiosos. 
Já te ficcionalizei faz tempo. Já preenchi todas as intermitências que se interpuseram entre os nossos espaços. 

21 junho 2012

Sobre a Observação


Eu poderia começar essa croniqueta falando sobre o mais belo e bem torneado par de pernas que os meus olhos já viram, mas como isso não desperta em mim nenhum desejo ou estupefação, a não ser, é claro, o prazer estético de contemplar o que considero bonito, vou falar de algo que muito me interessa e que intitula essa publicação: a observação.

Dizem que quem fala muito, não observa nada. Acho essa máxima um tanto limitada. Até porque sou do tipo que fala pelos cotovelos e observa na mesma proporção. Devo, entretanto, admitir que, em silêncio observo mais acuradamente as pessoas e suas atitudes.

Os autoritários são os tipos que mais me impressionam porque são seres humanos como eu ou você que lê essas pequenas reflexões. É lindo perceber que o autoritário não sustenta essa postura o tempo todo. Há sempre alguma coisa, à espreita, que pode afetar a sua encenação: como um calcanhar de Aquiles ou Kriptonita. Quem sabe?

É no instante da distração do outro que os meus sentidos se extasiam com a descoberta. Não de segredos ou mistérios, mas a descoberta de uma humanidade desvelada. Isso não significa que ando por aí observando os defeitos alheios, não! É óbvio demais. O que me interessa são os pequenos detalhes que escapam ao exame apressado. O que me interessa é perceber, extasiadamente, que nesses detalhes tão tênues mora a humanidade: desejos, anseios, aflições.

No que difere uma pessoa autoritária de mim ou de você? Apenas na postura diante do mundo e das pessoas, mas nos sentimentos, amigo, somos todos iguais. Somos uns cães sem dono.

(Calliope)

09 junho 2012

A Casa

A casa é a mesma e não mudou nada desde que viemos para cá. Ela envelheceu com a gente. Os sonhos se agarraram às paredes que descascaram, à espera de uma pele nova que nunca veio. Embora não pareça, o telhado foi trocado há muitos anos atrás, mas o envelhecimento é visível no aspecto entristecido das telhas e, audível, no estalar do madeiramento. 
São muitos os castigos diários a que está submetida uma casa: a chuva, o sol, o vento... o tempo e sua impassibilidade, sua inclemência. 
Ela já era velha quando viemos pra cá. Não se sabe ao certo quantas gerações ela viu crescer e mudar. Só ela não muda, é sempre a mesma casa velha.
Chove agora e as gotas que atravessam as pequenas fissuras e caem aqui dentro, sobre nossas cabeças, são doses homeopáticas compostas de lágrimas.
É velha, é bem verdade, relicário de nossas vidas, mas é ela quem guarda nossos corpos, nossas almas, nossos anseios...

08 fevereiro 2012

Dois aniversários


Meu pai vive com a gente em um velho álbum de fotografias. Há muito tempo ele vive aqui como uma figura simbólica. A capa do álbum é verde-mar e várias pequenas embarcações coloridas estão sobre ela. A capa talvez fosse pouco importante se meu pai não tivesse morrido afogado na praia, dias antes de completar 23 anos. Curiosa ironia. De vez em quando recorro ao álbum só para ver o quanto meu irmão mais velho se parece com ele. Meu pai vive nos retalhos de velhas histórias que se ouve aqui e ali, nas velhas lembranças dos parentes. Um tio cardíaco lembrou, dia desses, sentado no sofá de nossa sala, o quanto meu pai era inteligente. Entendia de eletrônica e mecânica e fazia pinturas extraordinárias (sabe-se lá que sorte tiveram)... Pouco fiz parte de sua história. Meu pai morreu antes que eu completasse 1 ano de vida. Quando nasci ele disse a Loira que eu tinha mãos de pianista (curioso vaticínio já que sou pianista de teclas de computador e minha música é toda feita de palavras) e que meu irmão tinha mãos de mecânico (curioso vaticínio para quem é infinitamente mais inteligente do que eu poderia ser um dia). Já se passaram quase 26 anos e se estivesse entre nós, neste ano, meu pai completaria 50 anos. Ano após ano, meu pai faz dois aniversários.  

13 janeiro 2012

O Relógio e A Criança

O relógio repousa, eterno, na parede da copa. Relógio preto sobre revestimento branco. Velho quadro de velhos dias. A criança brinca enquanto o tédio espreita em seus refúgios mais costumeiros: cantos, janelas, portões... O tédio repousa, também, nas mudanças imprevistas. A criança quer aprender a ver as horas naquele relógio e compreender a curiosa relação entre os numerais e os ponteiros. Esperto como só as crianças podem ser, ele aprende. A felicidade de decifrar aquele grande mistério é breve, pois entender o mecanismo do relógio, implica entender, também, Tempo. E Tempo jamais obedece a vontade de quem quer que seja, adulto ou criança. Entender o relógio é entender quão intermináveis podem ser as horas alongadas pela tristeza de quem espera. 

11 novembro 2011

O Muro e o Chão: Crônica de um Suicídio


Não era apenas o sol escaldante daquela tarde de fevereiro que incomodava. Os programas de TV doíam na vista e na alma. Gente morta, dia após dia, ganhava os seus 15 minutos de fama e seu lugar ao sol nos jornais vespertinos. Repórteres enfáticos, como atores de um cotidiano brutal, anunciavam chagas abertas da realidade da vida: Um jovem ameaçava se atirar do viaduto. Era o viaduto de acesso ao meu bairro. Todos os programas em todos os jornais locais anunciavam a mesmíssima notícia. E pelas câmeras de TV era possível ver a decoração do Carnaval próximo. Faltavam poucos dias para a grande festa, mas tudo é motivo para carnaval. O homem lá, dependurado no viaduto e as pessoas embaixo já começavam a se amontoar no beiral da pista. Na TV, o rosto do homem em destaque, um close-up aterrador. Um policial tentava convencê-lo a descer. Tudo devidamente registrado pelas câmeras de TV. Um ônibus, cheio de passageiros, atravessava a ponte. Alguém gritou: “Se joga logo, ô maluco.” Os carros já iam se aglomerando lá embaixo. Um carro dos bombeiros chegou e começou a montar um estranho aparato caso o nosso pretenso suicida se atirasse ponte abaixo. Almas concentradas não tiravam os olhos da TV. Estranhíssimo espetáculo é a tragédia dos outros. A mim, parecia que todos queriam estender aquele drama o máximo possível. O policial continuava falando ao homem que parecia uma pedra insondável. Seu rosto suado demonstrava uma imparcialidade angustiada. A vida estreitava-se entre o muro e o chão. E o mundo parecia tão grande... Quantos suicídios eram perpetrados minuto a minuto mundo afora? O trânsito na região do viaduto ficou totalmente paralisado pelo trabalho dos bombeiros e pelo trabalho essencial dos curiosos. Quando o homem finalmente se jogou houve quem dissesse estar aliviado. As equipes de TV não agüentavam mais estar em cima da notícia. A queda não parecia filme. Foi tão rápida que mal pode ser filmada. É claro que sempre há os recursos cinematográficos e os efeitos especiais para incrementar a cena, mas isso tudo ficou por conta do sangue no asfalto, pintando a rua. A TV cumpriu seu papel informativo mostrando o homem morto, um suicida com olhos, boca e cabeça abertos. Tudo parecia fitar o chão. O vermelho sanguíneo no asfalto deu um colorido diferente ao cinza e preto da rua, na cena. Era um colorido a mais na tarde quente. Um colorido a mais na TV. Um colorido a mais na avenida, afinal, é Carnaval.
Depois do suicídio batido e debatido na TV era a vez de propangandear a heroicidade dos envolvidos: o trabalho extenuante dos bombeiros, o policial que intermediava os pés do suicida entre o chão de cima e o chão lá de baixo do viaduto e as equipes de TV que se aglomeravam por cima da notícia fresca.
Mas o que ficou sem resposta foram as razões do jovem rapaz que parecia não ter nome já que a manchete o chamava de “O Suicida”. Quais seriam suas razões? Por que alguém quereria morrer se a vida é tão boa? Se dizem por aí que aqui há sol e também belas praias e boas mulheres? Por que alguém quereria morrer se temos Carnaval?      

(Calliope)

30 outubro 2011

Devil in the Details

Você tem histórias pra contar. Experiências de "vida"... Talvez não saiba o que é ficar sozinho, o que é estar sozinho, talvez não saiba o que é rejeição.
A rejeição tem uma cara feia dos diabos, é doença braba que sai largando marcas e quando você pensa que tá curado, se pega ouvindo uma canção, se pega lembrando, se pega sentindo...
Você não sabe o que é rejeição. Você só sabe o que é ter essa dúvida: tomei o atalho errado? E fica se sentindo culpado. It gets you down!
Mas quer saber, não dê ouvidos à dúvida, ela é perniciosa... Eu te asseguro:
Você fez uma excelente escolha ficando em cima do muro.
Cada um que carregue, agora, sua própria cruz de recordações: eu com minhas lembranças, você com suas canções. Vamos passear juntos, embalados por todas essas canções: elas são como esperanças, a gente se agarra à elas, para não morrermos afogados, numa praia qualquer.
Eu seguro sua mão e chego a esquecer o tempo que perdi, mas nesse momento, a canção chega ao fim.

16 outubro 2011

Ars est celare artem

Lia com sofreguidão. Páginas e páginas, títulos e títulos, autoras e autores, poesia e prosa, comédia e drama. Lia como se estivesse à beira da morte, como se não houvesse outra sorte. Lia como se fosse sina da qual não se foge. Lia até que ardessem os olhos, a alma. Lia e procurava compreender o que lia. Era um vício, uma mania. Quanto mais hermética a leitura, mais a lia. Lia e era tão grande a fome que sentia de entender o que a leitura dizia que um dia se soube que comia. Comia como quem morria de uma fome sem consolo. Comia e comia enquanto lia, páginas e páginas de leitura fria, dura, crua, imprecisa... Até notar que comia ali, ainda viva, literatura pura. Comia, vorazmente, páginas inteiras, rasgava e comia páginas e mais páginas de poesia ou de teoria, comia como se não houvesse outra sorte: comia como quem sentia próximo o espectro resplandecente da morte.

09 outubro 2011

Sobre Maçãs e Dentes

Eu gosto de maçãs duras, rígidas. Mas a minha impossibilidade de mordê-las faz com que eu as evite. Detesto ter de cortá-las e recortá-las, fazê-las em pedaços, para que se encaixem em minha boca. Detesto ter de escalpelá-las porque, em algum momento entre minha mão e a lâmina da faca, elas deixam de ser maçãs e se transformam em fruto sem cor e sem forma: só gosto no tato de minha língua. Detesto maçãs moles, macias. Fáceis demais, doces demais.
Eu gosto mesmo é das maçãs duras, rígidas. Gosto de sentir delas o vigor entre meus dedos. Gosto de cravar nelas meus dentes e fazer com que sangrem sumo ácido em minha boca. Gosto de arrancar pedaços grandes da carne e da pele da fruta e devorá-los ruidosamente... Mas, diante de minha impossibilidade de mordê-las, devorá-las inteiras, engolindo as sementes, eu as evito. Evito a dureza das maçãs inteiras, evito fatias de maçãs cortadas.

07 agosto 2011

Rei Poeta

O rei poeta espera, confortavelmente, em seu trono trabalhado em ricas pedrarias. Sobre sua cabeça descansa uma esplêndida coroa fria e jóias esculpidas no mais puro ouro adornam-lhe todo o corpo: dedos, mãos, pescoço. O rei poeta segura o cetro de sua majestade e traz às costas um requintadíssimo manto de um vermelho felpudo e intenso. O rei poeta tem uma bela aparência e formas exuberantes. Entre exclamações e mesuras seus súditos o reverenciam. O rei poeta espera em seu castelo: pedestal da excelência! O rei poeta espera o mensageiro real trazer notícia de sua poesia. 

(06/08/2011) 
 
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