07 novembro 2009

Ela

Ela não tem cenário.
Vejo-a desfilando pela rua, despertando atenções e atrações explosivas.
Ela não é comedida. Algumas vezes percebo-a, insinuante, no escritório: copa, corredores e escadaria.
Ela não pede favores à ninguém, tampouco permissão para coisa alguma.
Ela não almoça na sua casa para não ter que lavar a louça depois.
Ela não compreende a eternidade, sua mente só alcança o que pode tocar com a mão e, vampiresca, ela sempre alcança o seu coração para despedaçá-lo. E para despedaça-los todos, basta um gesto. Basta um dedo convidativo.
Não se pode chamá-la porque ela tem muitos nomes, mas não costuma atender à nenhum nome específico.
Ela é metade precipício e metade perdão.
Mas não é preciso procurá-la pois sua distração favorita é caçar. Ela não faz vítimas, as pessoas é que se vitimizam.
Ela é desleal;
Infiel;
Ela é toda Traição.

(Calliope, 07/11/2009)

21 outubro 2009

Cíclico

Deveria eu romântico ser
Se me orgulhasse
Das rosas que beijei
E ainda, das que beijar desejei?*

O Amor é vaidoso. Vangloria-se dos seus feitos, quer tenha machucado alguém, quer tenha matado de gozo. Vive solto pelo mundo, não há quem o prenda, pois prendê-lo seria sentenciá-lo à morte. Há quem chore, sangre, morra... Há até quem escreva metafóricas historinhas... E o Amor, inocentemente, faz-se de desentendido, e conta a sua versão da história.
Mas a verdade, é que o Amor se desdobra, se transforma, sofre metamorfose, morre e renasce... E continua sendo o soberbo Amor.
(Calliope, 20/10/2009)

*Romântico, Grigório Rocha - www.poesiasdoabsurdo.blogspot.com


14 agosto 2009

O Sinal

Apareceu-me nu, sorrateiramente, no meu sonho. Quando me dei conta, ele já estava debaixo do chuveiro e pude vislumbrar cada gota que caía, se esparramando no seu corpo, tocando-o com suavidade. O curioso é que não me lembro de ter visto o seu rosto, mas o seu rosto, não me parecia tão interessante quanto o seu corpo molhado e sua pele negra. Sem razão aparente, eu sentia um misto de arrependimento e repulsa. Eu não queria aquele corpo e, no entanto não conseguia parar de olhá-lo. Pude ver signos ao longo de 1,90cm de ossos, carne, pele e natureza duvidosa. Eram tatuagens, dessas que vêm embrulhadas no chiclete. Achei isso ligeiramente infantil e lhe perguntei se não teria coragem de fazer uma tatuagem de verdade e ele me respondeu, mentalmente, já que não me lembro de ter escutado sua voz, que tinha uma tatuagem e fez sinal para que os meus olhos seguissem sua mão... Nas costas, logo abaixo da nuca, havia uma tatuagem verdadeira. Mais um signo? Esfreguei-a com o dedo a fim de testar a sua veracidade. Não desbotou. Era, de fato, verdadeira. Dediquei algum tempo a observar o desenho que me provocou certo fascínio: era um círculo, metade lua, metade máscara. Nada poderia representar melhor a sua inconstância como a lua, ou o seu caráter enganoso como uma máscara. A tatuagem não pertencia ao glorioso tempo em que fiz parte daquele mundo infanto-juvenil e senti estranheza. Havia sonhado o sonho errado. Mas aquela tatuagem era um sinal. Sinal este que ainda não pude interpretar.

(Calliope, 14/08/2009)

30 junho 2009

O Ofício

Diante do espelho ela pintava os lábios de vermelho. Dalí se desprendiam poemas inteiros, sonetos, os versos mais brandos ou mais brancos que eu poderia pintar. Ela era toda poesia. Desde o acordar ao anoitecer, emanava versos que pairavam no ar como o seu perfume. Mas palavras não são voláteis, grudam-se na pele, nos cabelos e se reproduzem ou parasitam, ao contrário de nós, não perecem. Poderia passar horas olhando o seu ciúme sendo camuflado por sorrisos, mas até do seu ciúme rebentavam poemas. Eu era apenas um escritor escravizado pela visão atordoante da musa. Queria eternizá-la contornando os lábios com aquele batom vermelho, fazer o seu retrato todo em palavras... De repente ela borrava o batom e desfazia o nó que arrumava os seus cabelos. De repente ela não queria ser musa, queria ser apenas mulher. Ela me queria homem, eu a queria musa. Ficamos apartados e solitários. Ela apenas mulher e eu poeta, apenas.
(Calliope, 06/07/2009)

07 junho 2009

O Verme

A garotinha sufocava o choro com a mão na boca, disposta em concha, sentada no chão frio, esperando que ninguém a ouvisse. Decerto, ninguém a ouviria. Dores latentes não gritam por aí, às escâncaras. Ficam batendo na alma, entoando canções. Mal cabiam, naquela cabecinha, tantas coisas: idéias, aspirações, planos... Ela odiava os planos. Planos foram criados para serem seguidos à risca. Ela os traçava, programava, projetava e no instante seguinte, eles se tornavam déspotas. Queriam ser executados e concluídos independente das dificuldades. Ela odiava o futuro. Como poderia gostar do que não podia divisar? Do que não podia tocar com a mente? Prendeu a respiração esperando que o soluço cessasse, quando viu um verme se arrastando pelo chão. Era mole como uma minhoca, palpável como uma minhoca. Não tinha mãos, nem pés, não tinha nada, além de uma cápsula corpórea mole. Teria uma alma? Mas o que é ter alma?
- É ter um corpo, dentro do seu corpo. – disse o verme. – Outro corpo cheio de vontades.
A garotinha arrepiou-se de assombro. – Eu não fiz essa pergunta! – disse ela.
- Mas pensou e para mim, basta que pense. Eu sou parte de você. – argumentou o verme.
Ela teria falado alguma coisa se o horror não a tivesse emudecido.
- Sou parte integrante de todos. Mas, com veemência me negam. Lêem para fingir que não existo. Aprendem, os que podem, para me sepultar no esquecimento. E me atiram aos pobres, aos porcos, aos parcos. Eu sei que sou um trapo. Mas, ainda assim, existo.
O verme se aproximou, um pouco mais, tocando a garotinha. Seu corpo era frio e pegajoso. Ela tremeu. Quis gritar, mas o horror a paralisava.
- Não tema! Não sou agressiva, embora faça mal. Eu quero um pouco da sua atenção. Os demais são tão racionais. Tão intelectuais. Eu quero me sentir importante: como o plano, como o sonho, como o amor. Qualquer grande aspiração. Não gosto de ser o que sou, mas não nego minha condição. Os demais é que me negam com fervor. Sou a mais sombria das condições. A mais miserável das realidades.

(Calliope, 07/06/2009)

04 maio 2009

A Criatura

Som.
Abriu os olhos na escuridão. Abandonou os seus lençóis amenos. O vento gelado da madrugada sacudia a poeira, as cortinas e sua alma, congelando os seus anseios. O som ignorava chuva e vento, madrugada e escuridão. Era como o bater de uma porta de aço. Era como o desabamento de uma caverna. Era o som desesperado e rouco de alguém que foi sepultado vivo.
Acendeu, mecanicamente, a luz de um cômodo. Sentou-se. Serviu-se de papel e caneta. Som. Som. Som. Retumbante. As primeiras marcas surgiram no papel. Rabiscos involuntários? Exumação. Terra, escombros e destroços foram removidos de sua alma. Mais um parto obscuro e lento. Artístico. Dera à luz, a uma dessas criaturas complexas, repletas de lampejos e símbolos, verdade e sugestão.
Sublimou-se como um deus quando criou o último verso. Soberbo.
A criatura, parto singelo e puro, riu-se.
Ascendeu na escala evolutiva e deixou de ser criatura.
Escravizou esse deus doido a quem chamam de poeta.
(Calliope, 03/05/2009)

14 abril 2009

Coletividades Sofredoras

Vagava inconsolável, pelas ruas. Culpava o destino por seus infortúnios. Maldizia o dia em que nascera. Praguejava contra a mãe, o pai, a vizinha, enfim, o mundo.
Esmagava flores e chutava pedras que apareciam no caminho. Com as mãos cheias de ódio secava o suor que porejava na sua testa.
Olhos raivosos brilhavam no seu rosto. Ao redor, notava crianças descalças, à toa, como se fossem filhotes de cães, aprendendo a se virar.
Uma mulher desgrenhada, de vestido puído e amarfanhado, quase que escangalhada por um provável derrame, lhe sorriu. A boca sem os incisivos. Em seu olhar, uma pontinha de escárnio.
Fugiu da mulher, correndo como um louco, sem saber para onde ir, temendo vê-la novamente.
Ofegante, sentou em um banco da praça. Pombos cortavam os ares em vôos imprevisíveis. Arbustos enchiam de verde o ambiente enquanto bêbados enchiam a cara, aprisionando-se, ainda mais fundamente, no vício.
Meninas perdidas contavam casos de colégio. Sem a menor inocência.
Ao longe, um murmúrio de morte recente ecoava. Fitas negras tremulavam em postes de luz, proclamando luto.
Um louco sorria ao acaso. Na alegria imbecil da desforra, assombrava os transeuntes. Cruzando o caminho do louco, uma senhora contava moedas para comprar o pão.
Adiante, numa placa pintada à mão, um pobre velho anunciava a sua candidatura – a deputado estadual – na iminente eleição.
Chorou amargurado, ao perceber o quão horrível a vida podia ser, também, para os outros.
(Calliope, 05/09/2006)

13 abril 2009

Sina

A sorte não sorriu para Mariana. Talvez, por isso, ela jamais sorrira como nós sorrimos quando estamos felizes. Ninguém nunca viu, no rosto de Mariana, aquele sorriso largo, esbanjando dentes, esticando os lábios, alterando o contorno das bochechas... Não! Mariana jamais sorrira deste modo. Se disser que nunca sorrira, estaria mentindo, mas o seu sorriso era sempre aquele riso escondido, que se forma, timidamente, no canto da boca. Mas, enfim, nunca um sorriso feliz.
E motivos para sorrir, Mariana não os tinha. Como mencionei, a sorte não lhe sorrira. Mas, a desgraça, sim, sempre estivera ao seu lado, abraçando as poucas carnes que lhe cobriam os ossos.
Mariana era a quinta de uma prole de 12 filhos. Os três últimos já dormiam na sepultura, assim como a mãe de Mariana, Dona Maria das Dores, que sofreu tanto no parto do seu derradeiro filho, que veio a morrer, com a criança entalada entre as pernas, como se não quisesse pôr os pés neste mundo odiento.
A causa da morte dos outros dois infantes não sei explicar, mas quando se nasce na miséria, a morte é a vizinha da casa adiante. Restara, para Mariana, o pai, homem sofrido, e seus oito irmãos.
Coitada de Mariana! Seus olhos eram duas pedras tristes... Brilhavam com a água do choro. Chorar, para Mariana, era tão natural quanto dormir e acordar.
Chorava ao ver a dor de seu pai, que após a morte da mulher e do último “fio”, que foi capaz de gerar, caiu num desalento sem tamanho. Mal falava, mal comia.Chorava ao ver os irmãos mais novos com os olhos ávidos, esperando o arroz cozido, para saciar os estomagozinhos infantis.
E foi assim por toda sua vida... Foi assim quando o pai morreu e quando os irmãos mais moços cresceram e os mais velhos casaram e desertaram.
Um dia, quando Mariana se deu conta, não havia restado ninguém. Dos irmãos, os que se não casaram, morreram e os que viviam sabiam que Mariana era morta, que vida já não tinha, posto que só chorava.
E Mariana ficou velha e sozinha, na velha casa onde nascera e crescera. E já que não lhe sobrara nada, tudo que podia fazer era chorar, pensando nas pessoas que amara e que perdera.
Ela chorou. E chorou tanto, que ao lhe faltarem as lágrimas, os olhos, que tanta desgraça viram, rolaram, como duas resignadas lágrimas, pela cara.
(Calliope, 14/03/2006)

28 fevereiro 2009

Desejo: Uma crônica Onírica

Acabara de chover. As plantas estavam úmidas e alegres por isso balançavam suas verdoengas folhas acompanhando, de forma ritmada, a passagem de uma brisa. Esta era a primavera em Paradiso, a flora com cores inimagináveis e uma fauna ainda mais exuberante.
O povo de Paradiso era amistoso, feliz e fiéis ao culto do grandioso deus Soberanus, que com seu imenso olho onipotente, que ficava no centro do seu peito, ele enxergava os atos de todos os seres. Soberanus via o coração e os pensamentos que se formavam nas arcas cerebrais de todos que habitavam Paradiso.
À beira de um lago, uma paradisiana esperava. Cantava uma canção plangente e incompreensível. Chorava e suas lágrimas enchiam ainda mais o pequeno lago cristalino. Seu nome era Utopia e uma chama ardente a consumia. Era um amor proibido que a entristecia.
Utopia amava Ímpeto, o impulsivo marido de Amora, a Grande Sacerdotisa de Soberanus. Amora era desprovida de visão, mas o justo Soberanus, aquele que tudo sabe, presenteou-a com um dom mais poderoso e revelador do que podem imaginar os olhos: A Clarividência. Amora enxergava com a mente e o coração.
E um dia, quando se prostrou para oferecer o cadáver de um pássaro sagrado ao seu magéstico deus, Amora viu a Lascívia, a Corrupção e a Traição do seu belo marido Ímpeto. Viu a Paixão que sufocava Utopia e quis fazê-la sofrer e até matá-la. Mas havia um ser entre eles, uma criança, que crescia no ventre de Utopia, um filho gerado da Volúpia, de um impulso apenas, de um Desejo. E pela primeira vez, em sua existência, Amora sentiu Ódio, pois de acordo com os votos sagrados que fizera à Soberanus, jamais poderia conceber um filho. Amora chorou, mas foi logo consolada por Soberanus, que lhe deu uma Idéia.
Utopia foi expulsa de Paradiso e condenada a vagar pela Amplidão Sem Fim, com o seu pequeno bastardo, Soberanus cuidaria do porvir e ambos seriam eternamente castigados. Ímpeto foi castrado e condenado à Perpétua Solidão.
E assim, à esmo, Utopia caminhou, enquanto o fruto do seu Amor por Ímpeto crescia em seu ventre. Mas, quando Utopia tinha sede, todos que habitavam aquelas terras estranhas, lhe negavam água e quando tinha fome, ninguém lhe oferecia comida e todos lhe negavam abrigo, pois ela era uma condenada ao exílio e ninguém jamais contestaria a vontade de um deus, mesmo que este não fosse propriamente, o seu deus.
Desta forma, nasceu o filho de Utopia. Em meio ao Nada, às margens de um rio esquecido, tendo como manto a relva que alimentava as lebres. Mas Utopia, não pôde lhe dar sequer um nome, pois perdera toda sua vitalidade.
Os anos passaram, Utopia envelheceu. Seus cabelos, outrora negros como a noite, tornaram-se brancos, alvos como o pêlo dos arminhos. Sua pele enrugou-se e os seus olhos, cor de opala, tornaram-se ainda mais merencórios.
Utopia, sentada à beira de um riacho, olhava tristemente a paisagem insólita das Montanhas do Nada. E assistia, sem nenhum entusiasmo, o crescimento do filho que concebera, o fruto do Desejo.
O pequeno menino, frágil e indefeso, logo tornou-se um homem, bravo e viril, fazendo-a lembrar, com Amargura, do seu grande Amor, Ímpeto.
Um dia, Utopia abandonou o seu fatigado corpo. Transcendendo a carne, tornou-se luz e seguiu célere em direção às estrelas e o seu filho ficou sozinho, sem nome e sem ter quem o amasse, desconhecendo o seu passado e toda Dor que à ele se irmanava.
Triste, o filho do Amor proibido de Ímpeto e Utopia, galgou solitário por todo o Espaço Vago. Chorou sozinho, sem abrigo ou alimento, nos Desertos do Pensamento. Até o dia em que chegou à pequena cidade de Infinda. Ele estava muito doente, aos poucos a melancolia o consumia. Em Infinda foi acolhido e tratado, mas quando lhe perguntaram o seu nome, ele voltou a se amargurar.
Porém, um dia, enquanto refletia sozinho, ao sopé das Íngrimes Montanhas, a cria banida de Utopia quis ser Rei, ser o Soberano de todos àqueles povos ermos. Mas ele não conhecia o seu poder. O bastardo de Paradiso não sabia que era capaz de possuir tudo o quanto quisesse, bastava apenas, desejar.
E eis que o banido virou Rei. E junto com esta honraria, recebeu um nome: E este nome foi Desejo. Após tantos anos, o filho de Utopia e Ímpeto, fora batizado. Finalmente, Desejo experimentou o agridoce sabor da Felicidade.
Os anos continuaram à passar e o Velho e Metafísico Tempo erguia-se com suas asas de falcão, anulando tudo que podia fenecer. Temendo que o Tempo lhe roubasse o prazer íntimo de conhecer a Verdade, Desejo quis descobrir o seu passado, que a tristonha Utopia, lhe havia omitido durante toda a sua existência.
Foi assim que Desejo chegou à Paradiso, ostentando as suas opulentas vestes e a sua imensurável beleza física. Como era um Rei, foi recebido pela Sacerdotisa-Mor da cidade de Paradiso. Esta era Amora, que ao se pôr diante do Rei Desejo, sentiu um arrepio lhe percorrer as veias e a substância que a animava pareceu se congelar. Amora não podia vê-lo, posto que era cega, mas sentiu a sua presença esmagadora e desfaleceu.
E assim, sem ordenar ou proclamar, Desejo conheceu a sua triste história e ao descobri-la, sua Fúria foi tão intensa que ele desejou acabar com aquele mundo de Aparências e de Vilipêndios.
E tudo virou deserto e pó e cinzas.
Mas o Velho e Metafísico Tempo, repovoou o Mundo e concedeu uma forma amorfa à todas as personagens desta crônica onírica, tal como as conhecemos nos dias de hoje.

(Calliope)

08 fevereiro 2009

A Mulher

Já nem me importo com a solidão.
Quando ela se aproxima,
De forma nada sutil,
Agarro-me à sua asa
E juntas, rabiscamos o céu,
Enchendo a sua vastidão,
Com traçados irregulares.
(Versos Esparsos)


Nos aproximamos de modo intenso. Vi o seu olhar magnético descrever uma trajetória imaginária e entrar em rota de colisão com o meu olhar perdido. Não pude desviar e deixei que o seu olhar caísse sobre mim.
Quando percebi, estávamos perto um do outro. Perigosamente perto. Não houve tempo para conversarmos. Ela não gostava de conversar. Então, me permiti ser tragado pela sua beleza, que emanava sensualidade em estado bruto.
Ela aparecia como se fosse um anjo. Sem que eu a convidasse, invadia a minha mente, a minha casa, a minha cama, a minha vida. Sem que eu me desse conta, estávamos juntos todos os dias. Todas as noites. Todas as horas vãs.
Não compreendo como ela parecia tão diferente à cada dia, como se fosse outra mulher. Na verdade era a mesma mulher, os seus encantos é que se mostravam de forma gradativa.
À noite, seus dedos tocavam minha pele com lascívia e sensualidade. Ela era tão sorrateira, invadia minha cama enquanto eu dormia, me envolvia em seus braços e eu deixava-me estar no conforto suave dos seus abraços cálidos.
Até então, não sabia o seu nome. Ela não costumava falar sobre si mesma. Seus atos dispensavam palavras. E eu não me importava, queria apenas deixar-me estar em seu colo, em suas espáduas, queria me perder na negridão dos seus cabelos e mergulhar, cada vez mais fundo, no opala dos seus olhos.
Atirava-me, sem medo, do despenhadeiro que eram seus beijos mornos. Me tornei um escravo do seu desejo de me possuir. Queria ouvir o crepitar dos meus próprios ossos se consumirem na chama incendida daquela paixão. Paixão inédita e perturbadora. Em cada rosto que olhava, era a sua face que via. Eu a queria a todo momento, queria ficar perto dela, me deixar sufocar na fumaça do seu cigarro, tomar a última gota do seu uísque.
Mas ela não estava lá. As suas marcas estavam tatuadas por toda a casa. Havia cinza de cigarro nos cinzeiros, marcas de batom nas minhas roupas, nos copos, na minha pele, enfim, por toda parte.
Ela adorava deixar marcas, como cicatrizes. Ela tatuou na minha alma a cicatriz de sua falta. Eu cambaleava pela casa vazia esperando me deparar com a sua silhueta nua, desfilando pelo corredor, na penumbra.
Ela me provocava. Quando desejava com veemência a sua presença, ela não aparecia.
Me sentia dono dela e ao mesmo tempo, me sentia seu escravo. Para tê-la, eu estava disposto à tudo, até mesmo à não tê-la, à não vê-la, à não tocá-la. Estava enlouquecendo com sua ausência.
Não nos víamos há dias, quando ela reapareceu, totalmente desgrenhada, a roupa rasgada, a maquiagem borrada. Ela me disse coisas sórdidas, me chamou de cretino, de tratante. Estava ainda mais lúbrica do que de costume. Tentei conversar, pois percebi nos seus olhos, um brilho melancólico, mas ela me calou com um beijo e eu fui assim levado por um beijo quente e doce.
Eu já não era mais nada. Tudo que havia em mim tinha o cheiro dela e o seu toque penetrante e carnal. Ela imperava em minha vida.
Ela me dominava. Eu me deixava dominar.
Ela não se entregava.
Ela me escravizava. Eu me deixava escravizar.
Quem era ela? Perguntava-me nos raros momentos em que a razão me compelia. Ela era uma mulher perfeita: Irrestrita. Complacente. Totalmente silenciosa. Não chorava, nem ria. Sua imparcialidade era um delicioso atributo.
Deixava-me estar, encantado com sua perfeição.
Um dia, quando a paixão arrefeceu e o seu fulgor, deu lugar à brandas ondas de calor sereno, eu quis saber o seu nome.
E ela disse: Em sua alma fixei minha morada. Ergui as paredes firmes do meu castelo. Me chamo Solidão. E não te abandono.

(Calliope, 24/11/2008)
 
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