28 fevereiro 2009

Desejo: Uma crônica Onírica

Acabara de chover. As plantas estavam úmidas e alegres por isso balançavam suas verdoengas folhas acompanhando, de forma ritmada, a passagem de uma brisa. Esta era a primavera em Paradiso, a flora com cores inimagináveis e uma fauna ainda mais exuberante.
O povo de Paradiso era amistoso, feliz e fiéis ao culto do grandioso deus Soberanus, que com seu imenso olho onipotente, que ficava no centro do seu peito, ele enxergava os atos de todos os seres. Soberanus via o coração e os pensamentos que se formavam nas arcas cerebrais de todos que habitavam Paradiso.
À beira de um lago, uma paradisiana esperava. Cantava uma canção plangente e incompreensível. Chorava e suas lágrimas enchiam ainda mais o pequeno lago cristalino. Seu nome era Utopia e uma chama ardente a consumia. Era um amor proibido que a entristecia.
Utopia amava Ímpeto, o impulsivo marido de Amora, a Grande Sacerdotisa de Soberanus. Amora era desprovida de visão, mas o justo Soberanus, aquele que tudo sabe, presenteou-a com um dom mais poderoso e revelador do que podem imaginar os olhos: A Clarividência. Amora enxergava com a mente e o coração.
E um dia, quando se prostrou para oferecer o cadáver de um pássaro sagrado ao seu magéstico deus, Amora viu a Lascívia, a Corrupção e a Traição do seu belo marido Ímpeto. Viu a Paixão que sufocava Utopia e quis fazê-la sofrer e até matá-la. Mas havia um ser entre eles, uma criança, que crescia no ventre de Utopia, um filho gerado da Volúpia, de um impulso apenas, de um Desejo. E pela primeira vez, em sua existência, Amora sentiu Ódio, pois de acordo com os votos sagrados que fizera à Soberanus, jamais poderia conceber um filho. Amora chorou, mas foi logo consolada por Soberanus, que lhe deu uma Idéia.
Utopia foi expulsa de Paradiso e condenada a vagar pela Amplidão Sem Fim, com o seu pequeno bastardo, Soberanus cuidaria do porvir e ambos seriam eternamente castigados. Ímpeto foi castrado e condenado à Perpétua Solidão.
E assim, à esmo, Utopia caminhou, enquanto o fruto do seu Amor por Ímpeto crescia em seu ventre. Mas, quando Utopia tinha sede, todos que habitavam aquelas terras estranhas, lhe negavam água e quando tinha fome, ninguém lhe oferecia comida e todos lhe negavam abrigo, pois ela era uma condenada ao exílio e ninguém jamais contestaria a vontade de um deus, mesmo que este não fosse propriamente, o seu deus.
Desta forma, nasceu o filho de Utopia. Em meio ao Nada, às margens de um rio esquecido, tendo como manto a relva que alimentava as lebres. Mas Utopia, não pôde lhe dar sequer um nome, pois perdera toda sua vitalidade.
Os anos passaram, Utopia envelheceu. Seus cabelos, outrora negros como a noite, tornaram-se brancos, alvos como o pêlo dos arminhos. Sua pele enrugou-se e os seus olhos, cor de opala, tornaram-se ainda mais merencórios.
Utopia, sentada à beira de um riacho, olhava tristemente a paisagem insólita das Montanhas do Nada. E assistia, sem nenhum entusiasmo, o crescimento do filho que concebera, o fruto do Desejo.
O pequeno menino, frágil e indefeso, logo tornou-se um homem, bravo e viril, fazendo-a lembrar, com Amargura, do seu grande Amor, Ímpeto.
Um dia, Utopia abandonou o seu fatigado corpo. Transcendendo a carne, tornou-se luz e seguiu célere em direção às estrelas e o seu filho ficou sozinho, sem nome e sem ter quem o amasse, desconhecendo o seu passado e toda Dor que à ele se irmanava.
Triste, o filho do Amor proibido de Ímpeto e Utopia, galgou solitário por todo o Espaço Vago. Chorou sozinho, sem abrigo ou alimento, nos Desertos do Pensamento. Até o dia em que chegou à pequena cidade de Infinda. Ele estava muito doente, aos poucos a melancolia o consumia. Em Infinda foi acolhido e tratado, mas quando lhe perguntaram o seu nome, ele voltou a se amargurar.
Porém, um dia, enquanto refletia sozinho, ao sopé das Íngrimes Montanhas, a cria banida de Utopia quis ser Rei, ser o Soberano de todos àqueles povos ermos. Mas ele não conhecia o seu poder. O bastardo de Paradiso não sabia que era capaz de possuir tudo o quanto quisesse, bastava apenas, desejar.
E eis que o banido virou Rei. E junto com esta honraria, recebeu um nome: E este nome foi Desejo. Após tantos anos, o filho de Utopia e Ímpeto, fora batizado. Finalmente, Desejo experimentou o agridoce sabor da Felicidade.
Os anos continuaram à passar e o Velho e Metafísico Tempo erguia-se com suas asas de falcão, anulando tudo que podia fenecer. Temendo que o Tempo lhe roubasse o prazer íntimo de conhecer a Verdade, Desejo quis descobrir o seu passado, que a tristonha Utopia, lhe havia omitido durante toda a sua existência.
Foi assim que Desejo chegou à Paradiso, ostentando as suas opulentas vestes e a sua imensurável beleza física. Como era um Rei, foi recebido pela Sacerdotisa-Mor da cidade de Paradiso. Esta era Amora, que ao se pôr diante do Rei Desejo, sentiu um arrepio lhe percorrer as veias e a substância que a animava pareceu se congelar. Amora não podia vê-lo, posto que era cega, mas sentiu a sua presença esmagadora e desfaleceu.
E assim, sem ordenar ou proclamar, Desejo conheceu a sua triste história e ao descobri-la, sua Fúria foi tão intensa que ele desejou acabar com aquele mundo de Aparências e de Vilipêndios.
E tudo virou deserto e pó e cinzas.
Mas o Velho e Metafísico Tempo, repovoou o Mundo e concedeu uma forma amorfa à todas as personagens desta crônica onírica, tal como as conhecemos nos dias de hoje.

(Calliope)

08 fevereiro 2009

A Mulher

Já nem me importo com a solidão.
Quando ela se aproxima,
De forma nada sutil,
Agarro-me à sua asa
E juntas, rabiscamos o céu,
Enchendo a sua vastidão,
Com traçados irregulares.
(Versos Esparsos)


Nos aproximamos de modo intenso. Vi o seu olhar magnético descrever uma trajetória imaginária e entrar em rota de colisão com o meu olhar perdido. Não pude desviar e deixei que o seu olhar caísse sobre mim.
Quando percebi, estávamos perto um do outro. Perigosamente perto. Não houve tempo para conversarmos. Ela não gostava de conversar. Então, me permiti ser tragado pela sua beleza, que emanava sensualidade em estado bruto.
Ela aparecia como se fosse um anjo. Sem que eu a convidasse, invadia a minha mente, a minha casa, a minha cama, a minha vida. Sem que eu me desse conta, estávamos juntos todos os dias. Todas as noites. Todas as horas vãs.
Não compreendo como ela parecia tão diferente à cada dia, como se fosse outra mulher. Na verdade era a mesma mulher, os seus encantos é que se mostravam de forma gradativa.
À noite, seus dedos tocavam minha pele com lascívia e sensualidade. Ela era tão sorrateira, invadia minha cama enquanto eu dormia, me envolvia em seus braços e eu deixava-me estar no conforto suave dos seus abraços cálidos.
Até então, não sabia o seu nome. Ela não costumava falar sobre si mesma. Seus atos dispensavam palavras. E eu não me importava, queria apenas deixar-me estar em seu colo, em suas espáduas, queria me perder na negridão dos seus cabelos e mergulhar, cada vez mais fundo, no opala dos seus olhos.
Atirava-me, sem medo, do despenhadeiro que eram seus beijos mornos. Me tornei um escravo do seu desejo de me possuir. Queria ouvir o crepitar dos meus próprios ossos se consumirem na chama incendida daquela paixão. Paixão inédita e perturbadora. Em cada rosto que olhava, era a sua face que via. Eu a queria a todo momento, queria ficar perto dela, me deixar sufocar na fumaça do seu cigarro, tomar a última gota do seu uísque.
Mas ela não estava lá. As suas marcas estavam tatuadas por toda a casa. Havia cinza de cigarro nos cinzeiros, marcas de batom nas minhas roupas, nos copos, na minha pele, enfim, por toda parte.
Ela adorava deixar marcas, como cicatrizes. Ela tatuou na minha alma a cicatriz de sua falta. Eu cambaleava pela casa vazia esperando me deparar com a sua silhueta nua, desfilando pelo corredor, na penumbra.
Ela me provocava. Quando desejava com veemência a sua presença, ela não aparecia.
Me sentia dono dela e ao mesmo tempo, me sentia seu escravo. Para tê-la, eu estava disposto à tudo, até mesmo à não tê-la, à não vê-la, à não tocá-la. Estava enlouquecendo com sua ausência.
Não nos víamos há dias, quando ela reapareceu, totalmente desgrenhada, a roupa rasgada, a maquiagem borrada. Ela me disse coisas sórdidas, me chamou de cretino, de tratante. Estava ainda mais lúbrica do que de costume. Tentei conversar, pois percebi nos seus olhos, um brilho melancólico, mas ela me calou com um beijo e eu fui assim levado por um beijo quente e doce.
Eu já não era mais nada. Tudo que havia em mim tinha o cheiro dela e o seu toque penetrante e carnal. Ela imperava em minha vida.
Ela me dominava. Eu me deixava dominar.
Ela não se entregava.
Ela me escravizava. Eu me deixava escravizar.
Quem era ela? Perguntava-me nos raros momentos em que a razão me compelia. Ela era uma mulher perfeita: Irrestrita. Complacente. Totalmente silenciosa. Não chorava, nem ria. Sua imparcialidade era um delicioso atributo.
Deixava-me estar, encantado com sua perfeição.
Um dia, quando a paixão arrefeceu e o seu fulgor, deu lugar à brandas ondas de calor sereno, eu quis saber o seu nome.
E ela disse: Em sua alma fixei minha morada. Ergui as paredes firmes do meu castelo. Me chamo Solidão. E não te abandono.

(Calliope, 24/11/2008)
 
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