14 abril 2009

Coletividades Sofredoras

Vagava inconsolável, pelas ruas. Culpava o destino por seus infortúnios. Maldizia o dia em que nascera. Praguejava contra a mãe, o pai, a vizinha, enfim, o mundo.
Esmagava flores e chutava pedras que apareciam no caminho. Com as mãos cheias de ódio secava o suor que porejava na sua testa.
Olhos raivosos brilhavam no seu rosto. Ao redor, notava crianças descalças, à toa, como se fossem filhotes de cães, aprendendo a se virar.
Uma mulher desgrenhada, de vestido puído e amarfanhado, quase que escangalhada por um provável derrame, lhe sorriu. A boca sem os incisivos. Em seu olhar, uma pontinha de escárnio.
Fugiu da mulher, correndo como um louco, sem saber para onde ir, temendo vê-la novamente.
Ofegante, sentou em um banco da praça. Pombos cortavam os ares em vôos imprevisíveis. Arbustos enchiam de verde o ambiente enquanto bêbados enchiam a cara, aprisionando-se, ainda mais fundamente, no vício.
Meninas perdidas contavam casos de colégio. Sem a menor inocência.
Ao longe, um murmúrio de morte recente ecoava. Fitas negras tremulavam em postes de luz, proclamando luto.
Um louco sorria ao acaso. Na alegria imbecil da desforra, assombrava os transeuntes. Cruzando o caminho do louco, uma senhora contava moedas para comprar o pão.
Adiante, numa placa pintada à mão, um pobre velho anunciava a sua candidatura – a deputado estadual – na iminente eleição.
Chorou amargurado, ao perceber o quão horrível a vida podia ser, também, para os outros.
(Calliope, 05/09/2006)

13 abril 2009

Sina

A sorte não sorriu para Mariana. Talvez, por isso, ela jamais sorrira como nós sorrimos quando estamos felizes. Ninguém nunca viu, no rosto de Mariana, aquele sorriso largo, esbanjando dentes, esticando os lábios, alterando o contorno das bochechas... Não! Mariana jamais sorrira deste modo. Se disser que nunca sorrira, estaria mentindo, mas o seu sorriso era sempre aquele riso escondido, que se forma, timidamente, no canto da boca. Mas, enfim, nunca um sorriso feliz.
E motivos para sorrir, Mariana não os tinha. Como mencionei, a sorte não lhe sorrira. Mas, a desgraça, sim, sempre estivera ao seu lado, abraçando as poucas carnes que lhe cobriam os ossos.
Mariana era a quinta de uma prole de 12 filhos. Os três últimos já dormiam na sepultura, assim como a mãe de Mariana, Dona Maria das Dores, que sofreu tanto no parto do seu derradeiro filho, que veio a morrer, com a criança entalada entre as pernas, como se não quisesse pôr os pés neste mundo odiento.
A causa da morte dos outros dois infantes não sei explicar, mas quando se nasce na miséria, a morte é a vizinha da casa adiante. Restara, para Mariana, o pai, homem sofrido, e seus oito irmãos.
Coitada de Mariana! Seus olhos eram duas pedras tristes... Brilhavam com a água do choro. Chorar, para Mariana, era tão natural quanto dormir e acordar.
Chorava ao ver a dor de seu pai, que após a morte da mulher e do último “fio”, que foi capaz de gerar, caiu num desalento sem tamanho. Mal falava, mal comia.Chorava ao ver os irmãos mais novos com os olhos ávidos, esperando o arroz cozido, para saciar os estomagozinhos infantis.
E foi assim por toda sua vida... Foi assim quando o pai morreu e quando os irmãos mais moços cresceram e os mais velhos casaram e desertaram.
Um dia, quando Mariana se deu conta, não havia restado ninguém. Dos irmãos, os que se não casaram, morreram e os que viviam sabiam que Mariana era morta, que vida já não tinha, posto que só chorava.
E Mariana ficou velha e sozinha, na velha casa onde nascera e crescera. E já que não lhe sobrara nada, tudo que podia fazer era chorar, pensando nas pessoas que amara e que perdera.
Ela chorou. E chorou tanto, que ao lhe faltarem as lágrimas, os olhos, que tanta desgraça viram, rolaram, como duas resignadas lágrimas, pela cara.
(Calliope, 14/03/2006)
 
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