04 maio 2009

A Criatura

Som.
Abriu os olhos na escuridão. Abandonou os seus lençóis amenos. O vento gelado da madrugada sacudia a poeira, as cortinas e sua alma, congelando os seus anseios. O som ignorava chuva e vento, madrugada e escuridão. Era como o bater de uma porta de aço. Era como o desabamento de uma caverna. Era o som desesperado e rouco de alguém que foi sepultado vivo.
Acendeu, mecanicamente, a luz de um cômodo. Sentou-se. Serviu-se de papel e caneta. Som. Som. Som. Retumbante. As primeiras marcas surgiram no papel. Rabiscos involuntários? Exumação. Terra, escombros e destroços foram removidos de sua alma. Mais um parto obscuro e lento. Artístico. Dera à luz, a uma dessas criaturas complexas, repletas de lampejos e símbolos, verdade e sugestão.
Sublimou-se como um deus quando criou o último verso. Soberbo.
A criatura, parto singelo e puro, riu-se.
Ascendeu na escala evolutiva e deixou de ser criatura.
Escravizou esse deus doido a quem chamam de poeta.
(Calliope, 03/05/2009)
 
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