30 junho 2009

O Ofício

Diante do espelho ela pintava os lábios de vermelho. Dalí se desprendiam poemas inteiros, sonetos, os versos mais brandos ou mais brancos que eu poderia pintar. Ela era toda poesia. Desde o acordar ao anoitecer, emanava versos que pairavam no ar como o seu perfume. Mas palavras não são voláteis, grudam-se na pele, nos cabelos e se reproduzem ou parasitam, ao contrário de nós, não perecem. Poderia passar horas olhando o seu ciúme sendo camuflado por sorrisos, mas até do seu ciúme rebentavam poemas. Eu era apenas um escritor escravizado pela visão atordoante da musa. Queria eternizá-la contornando os lábios com aquele batom vermelho, fazer o seu retrato todo em palavras... De repente ela borrava o batom e desfazia o nó que arrumava os seus cabelos. De repente ela não queria ser musa, queria ser apenas mulher. Ela me queria homem, eu a queria musa. Ficamos apartados e solitários. Ela apenas mulher e eu poeta, apenas.
(Calliope, 06/07/2009)

07 junho 2009

O Verme

A garotinha sufocava o choro com a mão na boca, disposta em concha, sentada no chão frio, esperando que ninguém a ouvisse. Decerto, ninguém a ouviria. Dores latentes não gritam por aí, às escâncaras. Ficam batendo na alma, entoando canções. Mal cabiam, naquela cabecinha, tantas coisas: idéias, aspirações, planos... Ela odiava os planos. Planos foram criados para serem seguidos à risca. Ela os traçava, programava, projetava e no instante seguinte, eles se tornavam déspotas. Queriam ser executados e concluídos independente das dificuldades. Ela odiava o futuro. Como poderia gostar do que não podia divisar? Do que não podia tocar com a mente? Prendeu a respiração esperando que o soluço cessasse, quando viu um verme se arrastando pelo chão. Era mole como uma minhoca, palpável como uma minhoca. Não tinha mãos, nem pés, não tinha nada, além de uma cápsula corpórea mole. Teria uma alma? Mas o que é ter alma?
- É ter um corpo, dentro do seu corpo. – disse o verme. – Outro corpo cheio de vontades.
A garotinha arrepiou-se de assombro. – Eu não fiz essa pergunta! – disse ela.
- Mas pensou e para mim, basta que pense. Eu sou parte de você. – argumentou o verme.
Ela teria falado alguma coisa se o horror não a tivesse emudecido.
- Sou parte integrante de todos. Mas, com veemência me negam. Lêem para fingir que não existo. Aprendem, os que podem, para me sepultar no esquecimento. E me atiram aos pobres, aos porcos, aos parcos. Eu sei que sou um trapo. Mas, ainda assim, existo.
O verme se aproximou, um pouco mais, tocando a garotinha. Seu corpo era frio e pegajoso. Ela tremeu. Quis gritar, mas o horror a paralisava.
- Não tema! Não sou agressiva, embora faça mal. Eu quero um pouco da sua atenção. Os demais são tão racionais. Tão intelectuais. Eu quero me sentir importante: como o plano, como o sonho, como o amor. Qualquer grande aspiração. Não gosto de ser o que sou, mas não nego minha condição. Os demais é que me negam com fervor. Sou a mais sombria das condições. A mais miserável das realidades.

(Calliope, 07/06/2009)
 
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