14 agosto 2009

O Sinal

Apareceu-me nu, sorrateiramente, no meu sonho. Quando me dei conta, ele já estava debaixo do chuveiro e pude vislumbrar cada gota que caía, se esparramando no seu corpo, tocando-o com suavidade. O curioso é que não me lembro de ter visto o seu rosto, mas o seu rosto, não me parecia tão interessante quanto o seu corpo molhado e sua pele negra. Sem razão aparente, eu sentia um misto de arrependimento e repulsa. Eu não queria aquele corpo e, no entanto não conseguia parar de olhá-lo. Pude ver signos ao longo de 1,90cm de ossos, carne, pele e natureza duvidosa. Eram tatuagens, dessas que vêm embrulhadas no chiclete. Achei isso ligeiramente infantil e lhe perguntei se não teria coragem de fazer uma tatuagem de verdade e ele me respondeu, mentalmente, já que não me lembro de ter escutado sua voz, que tinha uma tatuagem e fez sinal para que os meus olhos seguissem sua mão... Nas costas, logo abaixo da nuca, havia uma tatuagem verdadeira. Mais um signo? Esfreguei-a com o dedo a fim de testar a sua veracidade. Não desbotou. Era, de fato, verdadeira. Dediquei algum tempo a observar o desenho que me provocou certo fascínio: era um círculo, metade lua, metade máscara. Nada poderia representar melhor a sua inconstância como a lua, ou o seu caráter enganoso como uma máscara. A tatuagem não pertencia ao glorioso tempo em que fiz parte daquele mundo infanto-juvenil e senti estranheza. Havia sonhado o sonho errado. Mas aquela tatuagem era um sinal. Sinal este que ainda não pude interpretar.

(Calliope, 14/08/2009)

 
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