25 outubro 2010

Estilhaços

Era a primeira vez que lia uma mentira em seu lindo par de estrelas. Primeira leitura consciente, ao menos. A sensação foi de veneno. Veneno do mais suave. Fez chacota do meu desmazelo, do meu desespero. Mas, no meio das contas, tudo acaba em desejo. O olhar enternecido, o beijo suave, o roçar dos dedos... Continuou rindo das falhas, das tolices e da crueza das palavras. Queria consertar o brinquedinho quebrado que lhe apareceu cheio de remendos. Algumas coisas, simplesmente, não têm conserto. Pensou o que foi possível pensar: nada. Algumas coisas, simplesmente, não têm conserto. Espelho quebrado, casa abandonada. Juntos, juntamos estilhaços.

16 julho 2010

O caminho da incompreensão

Em ocasião da morte do vate paraibano Augusto dos Anjos, Olavo Bilac – conhecido como o príncipe dos poetas – disse que a poesia brasileira não perdia grande coisa.
Ledo engano! A poesia brasileira perdia, prematuramente, um de seus maiores expoentes poéticos. Mas este poeta, injustiçado pela crítica, à sua época, foi imortalizado pela sua poesia tão singular e original que não foi possível enquadrá-lo em nenhuma escola literária, tornando-se pré-modernista apenas por questões didáticas.

“Literariamente, parece que Cesário Verde não existe” desabafou o poeta Cesário Verde que foi ignorado pelas revistas e pela crítica literária, pois a sua originalidade e o desapego ao lirismo formal causavam estranheza ao gosto português. Cesário teve um único volume publicado, postumamente, por um amigo. O fato é que Cesário promoveu uma incrível renovação na poesia portuguesa, influenciando mais tarde, poetas como Fernando Pessoa.

A poesia No Meio do Caminho do ilustríssimo Carlos Drummond de Andrade foi recebida com grande estranheza pela crítica da época, em ocasião do seu lançamento, em 1928. Drummond teve coragem para publicar o seu poema e enfrentar a crítica quando ainda não tinha alcançado o merecido reconhecimento. Críticas estas que renderam a publicação do livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um poema, organizada pelo próprio Drummond em comemoração aos 40 anos de publicação do poema. Certamente, a poesia sem rima de Drummond, deve ter sido uma pedra no meio do caminho de muitos críticos.

O que estes poetas têm em comum além de possuírem reconhecimento e terem enfrentado a crítica?

Todos eles romperam com as tradições poéticas vigentes em suas épocas. Transgrediram regras e se libertaram da rigidez formal das escolas literárias.

Foram imortalizados pela arte, cada um a seu modo, ao seu estilo, com sua singularidade.
E hoje, na atualidade, depois de transpostas essas barreiras, será que vamos continuar trilhando o caminho da incompreensão? Julgando a arte do outro como inferior segundo as nossas próprias regras ou comparando-os com os grandes poetas póstumos que foram também vitimizados, em suas épocas, por visões tão míopes?

Embora aplicadas em outro contexto, ouso expor aqui palavras do próprio Drummond: “A poesia é incomunicável”.

06 junho 2010

A Chuva

  Talvez por querer que a chuva agreste da madrugada a lavasse, abandonou cômodo a cômodo de casa para atravessar o limiar da porta, a varanda. Desceu os degraus com vagar enquanto sua mente trabalhava automaticamente. Era uma engrenagem incansável, a mente. Quando se deu conta estava sentada na grama do jardim. A chuva batia com violência em seu rosto. Era uma espécie de autopunição sem mãos. Era como se quisesse que a chuva a espalhasse pelo gramado e que a terra a absorvesse. Queria se misturar à natureza sem que precisasse enfrentar o espetáculo da morte física. Queria que sua carne sólida se fizesse lamacenta pela ação da chuva.
  Efeito carrossel... Girando... Tudo estava girando. Tudo não passava de um borrão em tinta verde. Um quadro abstrato em tinta verde. Mas nada parecia frio, com exceção talvez daqueles panos que a cobriam. Com exceção talvez dos seus cabelos. E por que não arrancar os cabelos e as roupas que reprimiam sua carne?
  O carrossel parou. Aos poucos os borrões se convertiam em realidade extrema. Caiu da abstração de quadro. Constatou que estava deitada sobre a grama. Não tinha se convertido em lama, não tinha se misturado à terra, não tinha penetrado o solo nem tinha encontrado o lençol freático muito menos as camadas mais profundas do núcleo terrestre.
  Continuava deitava na grama sem querer aceitar que era ela de novo. A chuva passara e não levara para longe a realidade e suas conseqüências e suas banalidades. Era ela e aquela coisa latejante dentro de uma cabecinha em forma de coco. Levantou-se. Voltou para casa e aguardou que o sol estiasse.
  Quem sabe a próxima chuva a lavasse ou a levasse para outros campos, outras paragens.
 
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