06 junho 2010

A Chuva

  Talvez por querer que a chuva agreste da madrugada a lavasse, abandonou cômodo a cômodo de casa para atravessar o limiar da porta, a varanda. Desceu os degraus com vagar enquanto sua mente trabalhava automaticamente. Era uma engrenagem incansável, a mente. Quando se deu conta estava sentada na grama do jardim. A chuva batia com violência em seu rosto. Era uma espécie de autopunição sem mãos. Era como se quisesse que a chuva a espalhasse pelo gramado e que a terra a absorvesse. Queria se misturar à natureza sem que precisasse enfrentar o espetáculo da morte física. Queria que sua carne sólida se fizesse lamacenta pela ação da chuva.
  Efeito carrossel... Girando... Tudo estava girando. Tudo não passava de um borrão em tinta verde. Um quadro abstrato em tinta verde. Mas nada parecia frio, com exceção talvez daqueles panos que a cobriam. Com exceção talvez dos seus cabelos. E por que não arrancar os cabelos e as roupas que reprimiam sua carne?
  O carrossel parou. Aos poucos os borrões se convertiam em realidade extrema. Caiu da abstração de quadro. Constatou que estava deitada sobre a grama. Não tinha se convertido em lama, não tinha se misturado à terra, não tinha penetrado o solo nem tinha encontrado o lençol freático muito menos as camadas mais profundas do núcleo terrestre.
  Continuava deitava na grama sem querer aceitar que era ela de novo. A chuva passara e não levara para longe a realidade e suas conseqüências e suas banalidades. Era ela e aquela coisa latejante dentro de uma cabecinha em forma de coco. Levantou-se. Voltou para casa e aguardou que o sol estiasse.
  Quem sabe a próxima chuva a lavasse ou a levasse para outros campos, outras paragens.
 
BlogBlogs.Com.Br