16 julho 2010

O caminho da incompreensão

Em ocasião da morte do vate paraibano Augusto dos Anjos, Olavo Bilac – conhecido como o príncipe dos poetas – disse que a poesia brasileira não perdia grande coisa.
Ledo engano! A poesia brasileira perdia, prematuramente, um de seus maiores expoentes poéticos. Mas este poeta, injustiçado pela crítica, à sua época, foi imortalizado pela sua poesia tão singular e original que não foi possível enquadrá-lo em nenhuma escola literária, tornando-se pré-modernista apenas por questões didáticas.

“Literariamente, parece que Cesário Verde não existe” desabafou o poeta Cesário Verde que foi ignorado pelas revistas e pela crítica literária, pois a sua originalidade e o desapego ao lirismo formal causavam estranheza ao gosto português. Cesário teve um único volume publicado, postumamente, por um amigo. O fato é que Cesário promoveu uma incrível renovação na poesia portuguesa, influenciando mais tarde, poetas como Fernando Pessoa.

A poesia No Meio do Caminho do ilustríssimo Carlos Drummond de Andrade foi recebida com grande estranheza pela crítica da época, em ocasião do seu lançamento, em 1928. Drummond teve coragem para publicar o seu poema e enfrentar a crítica quando ainda não tinha alcançado o merecido reconhecimento. Críticas estas que renderam a publicação do livro Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um poema, organizada pelo próprio Drummond em comemoração aos 40 anos de publicação do poema. Certamente, a poesia sem rima de Drummond, deve ter sido uma pedra no meio do caminho de muitos críticos.

O que estes poetas têm em comum além de possuírem reconhecimento e terem enfrentado a crítica?

Todos eles romperam com as tradições poéticas vigentes em suas épocas. Transgrediram regras e se libertaram da rigidez formal das escolas literárias.

Foram imortalizados pela arte, cada um a seu modo, ao seu estilo, com sua singularidade.
E hoje, na atualidade, depois de transpostas essas barreiras, será que vamos continuar trilhando o caminho da incompreensão? Julgando a arte do outro como inferior segundo as nossas próprias regras ou comparando-os com os grandes poetas póstumos que foram também vitimizados, em suas épocas, por visões tão míopes?

Embora aplicadas em outro contexto, ouso expor aqui palavras do próprio Drummond: “A poesia é incomunicável”.
 
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