19 janeiro 2011

A Arca

A poesia, cansada de mim, me deixou a sós comigo mesmo. E eu mal pude suportar-me. Intenso e inquieto vazio a espreitar-me em muitos diálogos, muitas vozes... Muitas confissões mascaradas e versificadas, deformando tudo que eu sentia. E a poesia, maliciosa e assanhada, quando tentava alcançá-la, era de mim que corria. E esbanjava segredos que eu não queria ler... Eu já não acreditava em mais nada. Verdades e mentiras eram correlatas. Em tudo que ouvia era impossível crer. Mas havia aquela sombra que dizia: cuidado com a artimanha crua que pensas dominar, caro artista, porque o criador é mero escravo e enquanto versifica imitando um sábio é a arte que te domina – traiçoeira – desnuda carne e alma e te deixa assim, revelado.
 
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