17 fevereiro 2011

Humanamente, S.

Não me surpreendi quando ela disse que se alguém a empurrasse de um penhasco ela ficaria feliz porque adorava voar. Eu sempre soube que ela era uma espécie de anjo e que seria capaz de voar se quisesse. Sempre soube que jamais se contentaria com o céu sem antes ter sentido o chão vibrar em suas mãos. Para ela, pairar sobre as coisas, não era o suficiente. Queria se elevar às alturas mais imponderáveis para depois mergulhar vertiginosamente em qualquer escuridão, de onde saía incólume, como num piscar de olhos ou num simples bater de asas... Enquanto os meros humanos faziam questão de viver entre o céu e o inferno, entre o bem e o mal ela vivia alternando coisa e outra, batendo asas, ora de borboleta, ora de harpia. Não era um desses anjos elevados, de olhar enternecido e mãos unidas em oração.  Nem era um desses anjos banidos, de asas chamuscadas, envergonhados pela escuridão da queda. Não. Era sim um anjo desses que podem se metamorfosear em qualquer coisa: beija-flor, borboleta, Tinker Bell ou ela mesma, humanamente, S. 

(Calliope)
 
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