08 junho 2011

O Micro-ônibus

Esta é uma história real. Minhas obrigações quotidianas me obrigavam a pegar, diariamente, um micro-ônibus. E todos os dias, em determinado ponto da viagem, uma italiana entrava no ônibus e se detinha na parte dianteira, próxima a porta de entrada, já que àquela altura, o ônibus estava cheio. A italiana era muito branca, loura e tinha olhos azuis. Suas cores contrastavam com as demais cores, mas o que mais chamava a atenção, era o violino que ela trazia, dentro de um case, à mão. O motorista que era um pouco distraído e que vez ou outra se esquecia de parar nos pontos solicitados, o que despertava a ira dos passageiros mais coléricos, jamais esquecia o ponto em que a italiana pegava o ônibus. Quando a moça entrava, ele a recebia com um sonoro “bom giorno”. A pedido do motorista, que era também cobrador do micro-ônibus, a moça colocava o violino no painel evitando tê-lo à mão ou às costas. As viagens, apesar do trânsito, costumavam ser tranquilas, mas algum tempo depois, três amigas passaram a pegar o mesmo ônibus. Entravam muito antes da italiana e se recostavam no painel onde, outrora, a moça costuma ficar. Era difícil precisar se as três amigas se colocavam ali a fim de se livrarem do aperto a que todos se submetiam após passar a catraca ou para se posicionarem mais perto do motorista, já que ao longo da viagem travavam conversas animadíssimas, com direito a sonoras risadas matinais e alguns esquecimentos de paradas obrigatórias por parte do motorista. Quando chegava, porém, aquele ponto em que o motorista jamais se esquecia de parar e a violinista italiana entrava no ônibus carregando o seu instrumento, as três amigas ciumentas fechavam a cara e torciam a boca, olhando com desdém para a moça. O comportamento das três ciumentas gerava comentários sórdidos entre as outras passageiras enquanto a violinista italiana passava a catraca e se misturava à massa humana concentrada no interior do micro-ônibus. Vez por outra, alguém se oferecia para carregar o seu instrumento e a moça agradecia com um sorriso. Seguíamos viagem. As três ciumentas desciam juntas num mesmo ponto e a essa altura, o ônibus já esvaziava. Enquanto as pessoas desciam em seus pontos e seguiam caminhando para os seus trabalhos, eu ficava imaginando para onde iria, a violinista, tão cedo, carregando aquele instrumento. Quando o meu ponto finalmente chegava e eu finalmente descia, ficava imaginando quais sons a italiana extraía de seu instrumento. Essa novela sobre rodas se alongou por meses, anos, talvez. Até o dia em que a minha rotina mudou e eu nunca mais vi aqueles rostos que me pareciam tão familiares: o motorista distraído, a violinista italiana e as três ciumentas do micro-ônibus.
 
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