30 outubro 2011

Devil in the Details

Você tem histórias pra contar. Experiências de "vida"... Talvez não saiba o que é ficar sozinho, o que é estar sozinho, talvez não saiba o que é rejeição.
A rejeição tem uma cara feia dos diabos, é doença braba que sai largando marcas e quando você pensa que tá curado, se pega ouvindo uma canção, se pega lembrando, se pega sentindo...
Você não sabe o que é rejeição. Você só sabe o que é ter essa dúvida: tomei o atalho errado? E fica se sentindo culpado. It gets you down!
Mas quer saber, não dê ouvidos à dúvida, ela é perniciosa... Eu te asseguro:
Você fez uma excelente escolha ficando em cima do muro.
Cada um que carregue, agora, sua própria cruz de recordações: eu com minhas lembranças, você com suas canções. Vamos passear juntos, embalados por todas essas canções: elas são como esperanças, a gente se agarra à elas, para não morrermos afogados, numa praia qualquer.
Eu seguro sua mão e chego a esquecer o tempo que perdi, mas nesse momento, a canção chega ao fim.

16 outubro 2011

Ars est celare artem

Lia com sofreguidão. Páginas e páginas, títulos e títulos, autoras e autores, poesia e prosa, comédia e drama. Lia como se estivesse à beira da morte, como se não houvesse outra sorte. Lia como se fosse sina da qual não se foge. Lia até que ardessem os olhos, a alma. Lia e procurava compreender o que lia. Era um vício, uma mania. Quanto mais hermética a leitura, mais a lia. Lia e era tão grande a fome que sentia de entender o que a leitura dizia que um dia se soube que comia. Comia como quem morria de uma fome sem consolo. Comia e comia enquanto lia, páginas e páginas de leitura fria, dura, crua, imprecisa... Até notar que comia ali, ainda viva, literatura pura. Comia, vorazmente, páginas inteiras, rasgava e comia páginas e mais páginas de poesia ou de teoria, comia como se não houvesse outra sorte: comia como quem sentia próximo o espectro resplandecente da morte.

09 outubro 2011

Sobre Maçãs e Dentes

Eu gosto de maçãs duras, rígidas. Mas a minha impossibilidade de mordê-las faz com que eu as evite. Detesto ter de cortá-las e recortá-las, fazê-las em pedaços, para que se encaixem em minha boca. Detesto ter de escalpelá-las porque, em algum momento entre minha mão e a lâmina da faca, elas deixam de ser maçãs e se transformam em fruto sem cor e sem forma: só gosto no tato de minha língua. Detesto maçãs moles, macias. Fáceis demais, doces demais.
Eu gosto mesmo é das maçãs duras, rígidas. Gosto de sentir delas o vigor entre meus dedos. Gosto de cravar nelas meus dentes e fazer com que sangrem sumo ácido em minha boca. Gosto de arrancar pedaços grandes da carne e da pele da fruta e devorá-los ruidosamente... Mas, diante de minha impossibilidade de mordê-las, devorá-las inteiras, engolindo as sementes, eu as evito. Evito a dureza das maçãs inteiras, evito fatias de maçãs cortadas.
 
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