16 outubro 2011

Ars est celare artem

Lia com sofreguidão. Páginas e páginas, títulos e títulos, autoras e autores, poesia e prosa, comédia e drama. Lia como se estivesse à beira da morte, como se não houvesse outra sorte. Lia como se fosse sina da qual não se foge. Lia até que ardessem os olhos, a alma. Lia e procurava compreender o que lia. Era um vício, uma mania. Quanto mais hermética a leitura, mais a lia. Lia e era tão grande a fome que sentia de entender o que a leitura dizia que um dia se soube que comia. Comia como quem morria de uma fome sem consolo. Comia e comia enquanto lia, páginas e páginas de leitura fria, dura, crua, imprecisa... Até notar que comia ali, ainda viva, literatura pura. Comia, vorazmente, páginas inteiras, rasgava e comia páginas e mais páginas de poesia ou de teoria, comia como se não houvesse outra sorte: comia como quem sentia próximo o espectro resplandecente da morte.

2 Provocações:

Grigório Rocha disse...

A arte e o conhecimento tornam aqueles que os buscam incansáveis e esfomeados viventes, provando tudo que morre na página final, na palavra derradeira de cada obra, no seu último suspiro, no conceito e na beleza que não se revele sem o esforço quase mortal do leitor/devorador. Sem dúvida, uma poecrônica com uma carga drámática que nos toca no âmago dessa sensação, desse desejo irrefreável de ler e conhecer sempre mais.

Leandro de Assis disse...

É Disso que estou precisando para me reencontrar com a poesia. Nesta semana me perguntei qual foi a última vez que fui de blog em blog para ler e sentir a produção literária da galera e não soube responder.

 
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