11 novembro 2011

O Muro e o Chão: Crônica de um Suicídio


Não era apenas o sol escaldante daquela tarde de fevereiro que incomodava. Os programas de TV doíam na vista e na alma. Gente morta, dia após dia, ganhava os seus 15 minutos de fama e seu lugar ao sol nos jornais vespertinos. Repórteres enfáticos, como atores de um cotidiano brutal, anunciavam chagas abertas da realidade da vida: Um jovem ameaçava se atirar do viaduto. Era o viaduto de acesso ao meu bairro. Todos os programas em todos os jornais locais anunciavam a mesmíssima notícia. E pelas câmeras de TV era possível ver a decoração do Carnaval próximo. Faltavam poucos dias para a grande festa, mas tudo é motivo para carnaval. O homem lá, dependurado no viaduto e as pessoas embaixo já começavam a se amontoar no beiral da pista. Na TV, o rosto do homem em destaque, um close-up aterrador. Um policial tentava convencê-lo a descer. Tudo devidamente registrado pelas câmeras de TV. Um ônibus, cheio de passageiros, atravessava a ponte. Alguém gritou: “Se joga logo, ô maluco.” Os carros já iam se aglomerando lá embaixo. Um carro dos bombeiros chegou e começou a montar um estranho aparato caso o nosso pretenso suicida se atirasse ponte abaixo. Almas concentradas não tiravam os olhos da TV. Estranhíssimo espetáculo é a tragédia dos outros. A mim, parecia que todos queriam estender aquele drama o máximo possível. O policial continuava falando ao homem que parecia uma pedra insondável. Seu rosto suado demonstrava uma imparcialidade angustiada. A vida estreitava-se entre o muro e o chão. E o mundo parecia tão grande... Quantos suicídios eram perpetrados minuto a minuto mundo afora? O trânsito na região do viaduto ficou totalmente paralisado pelo trabalho dos bombeiros e pelo trabalho essencial dos curiosos. Quando o homem finalmente se jogou houve quem dissesse estar aliviado. As equipes de TV não agüentavam mais estar em cima da notícia. A queda não parecia filme. Foi tão rápida que mal pode ser filmada. É claro que sempre há os recursos cinematográficos e os efeitos especiais para incrementar a cena, mas isso tudo ficou por conta do sangue no asfalto, pintando a rua. A TV cumpriu seu papel informativo mostrando o homem morto, um suicida com olhos, boca e cabeça abertos. Tudo parecia fitar o chão. O vermelho sanguíneo no asfalto deu um colorido diferente ao cinza e preto da rua, na cena. Era um colorido a mais na tarde quente. Um colorido a mais na TV. Um colorido a mais na avenida, afinal, é Carnaval.
Depois do suicídio batido e debatido na TV era a vez de propangandear a heroicidade dos envolvidos: o trabalho extenuante dos bombeiros, o policial que intermediava os pés do suicida entre o chão de cima e o chão lá de baixo do viaduto e as equipes de TV que se aglomeravam por cima da notícia fresca.
Mas o que ficou sem resposta foram as razões do jovem rapaz que parecia não ter nome já que a manchete o chamava de “O Suicida”. Quais seriam suas razões? Por que alguém quereria morrer se a vida é tão boa? Se dizem por aí que aqui há sol e também belas praias e boas mulheres? Por que alguém quereria morrer se temos Carnaval?      

(Calliope)
 
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