21 junho 2012

Sobre a Observação


Eu poderia começar essa croniqueta falando sobre o mais belo e bem torneado par de pernas que os meus olhos já viram, mas como isso não desperta em mim nenhum desejo ou estupefação, a não ser, é claro, o prazer estético de contemplar o que considero bonito, vou falar de algo que muito me interessa e que intitula essa publicação: a observação.

Dizem que quem fala muito, não observa nada. Acho essa máxima um tanto limitada. Até porque sou do tipo que fala pelos cotovelos e observa na mesma proporção. Devo, entretanto, admitir que, em silêncio observo mais acuradamente as pessoas e suas atitudes.

Os autoritários são os tipos que mais me impressionam porque são seres humanos como eu ou você que lê essas pequenas reflexões. É lindo perceber que o autoritário não sustenta essa postura o tempo todo. Há sempre alguma coisa, à espreita, que pode afetar a sua encenação: como um calcanhar de Aquiles ou Kriptonita. Quem sabe?

É no instante da distração do outro que os meus sentidos se extasiam com a descoberta. Não de segredos ou mistérios, mas a descoberta de uma humanidade desvelada. Isso não significa que ando por aí observando os defeitos alheios, não! É óbvio demais. O que me interessa são os pequenos detalhes que escapam ao exame apressado. O que me interessa é perceber, extasiadamente, que nesses detalhes tão tênues mora a humanidade: desejos, anseios, aflições.

No que difere uma pessoa autoritária de mim ou de você? Apenas na postura diante do mundo e das pessoas, mas nos sentimentos, amigo, somos todos iguais. Somos uns cães sem dono.

(Calliope)

09 junho 2012

A Casa

A casa é a mesma e não mudou nada desde que viemos para cá. Ela envelheceu com a gente. Os sonhos se agarraram às paredes que descascaram, à espera de uma pele nova que nunca veio. Embora não pareça, o telhado foi trocado há muitos anos atrás, mas o envelhecimento é visível no aspecto entristecido das telhas e, audível, no estalar do madeiramento. 
São muitos os castigos diários a que está submetida uma casa: a chuva, o sol, o vento... o tempo e sua impassibilidade, sua inclemência. 
Ela já era velha quando viemos pra cá. Não se sabe ao certo quantas gerações ela viu crescer e mudar. Só ela não muda, é sempre a mesma casa velha.
Chove agora e as gotas que atravessam as pequenas fissuras e caem aqui dentro, sobre nossas cabeças, são doses homeopáticas compostas de lágrimas.
É velha, é bem verdade, relicário de nossas vidas, mas é ela quem guarda nossos corpos, nossas almas, nossos anseios...
 
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